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Médico ‘2.0’ cria empresa para atender pacientes por e-mail e SMS

Navegando pela internet em seu loft todo branco no Brooklyn (Nova York), Jay Parkinson, 37, tem a aparência que se espera de um jovem visionário da tecnologia, com uma barba bem aparada e óculos de aros espessos.

Usa roupas pretas de corte justo e lenços ousados no pescoço. Fala em tom ponderado, como se fosse o narrador de um documentário. E acredita firmemente nas promessas utópicas da Internet.

Michael Nagle/The New York Times
Jay Parkinson, fundador do serviço Sherpaa, na sede da empresa, em Nova York
Jay Parkinson, fundador do serviço Sherpaa, na sede da empresa, em Nova York

Mas a start-up (empresa iniciante de base tecnológica) criada por ele não é uma rede social ou um aplicativo. Ele fundou o Sherpaa, um site que opera como um consultório médico virtual, e permite exame de pacientes por meio de e-mails e mensagens de texto.

“Estamos usando a internet para reinventar os serviços de saúde”, diz Parkinson, com orgulho, sentado ao lado de uma mesa de pingue-pongue e de um cachorro peludo, mestiço das raças golden retriever e poodle.

Você está com uma irritação misteriosa na pele? Mande uma foto ao Sherpaa, responda a alguns e-mails (com perguntas como “tem certeza de que não é um machucado?” ou “há percevejos na sua cama?”) e depois basta visitar a loja mais próxima da rede de drogarias Duane Read para buscar sua receita.

Isso pode parecer um serviço de saúde para os hipocondríacos virtuais, mas os clientes do site incluem empresas importantes do setor de tecnologia de Nova York, como o Tumblr, Skillshare, General Assembly e Hard Candy Shell.

Parkinson talvez seja o mais famoso dos médicos 2.0 de Nova York, um grupo determinado a repensar o sistema de saúde para adaptá-lo ao século 21.

*SEM RUMO

Em 2007, depois de se formar em medicina pela Universidade Estadual da Pensilvânia e de concluir sua residência em pediatria no Hospital St. Vincent’s Manhattan, em Greenwich Village, Nova York, e uma segunda residência em medicina preventiva na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, ele fez o que todos os jovens descolados estavam fazendo na época e se mudou para Williamsburg, Brooklyn.

Parkinson alugou um apartamento térreo na Rua Nove Norte, e passava as noites no Hotel Delmano e no Brooklyn Ale House, e seus dias consumindo cafeína no Atlas Cafe. Sua vida não tinha rumo.

“Eu sabia que não queria trabalhar em um consultório privado”, conta. “Eu seria o cara mais baixo na hierarquia, com um salário péssimo e sem controle algum sobre minha escala de horário”.

Em lugar disso, criou um blog para falar sobre questões de saúde relevantes para os usuários da linha L do metrô do Nova York, o que incluía os perigos da cocaína e a maravilha que é a ptose (queda da pálpebra superior) do olho esquerdo de Thom Yorke (líder da banda Radiohead).

Também criou uma página no Tumblr, que mostrava uma foto em que ele parecia muito atraente, posando com um estetoscópio por sob a ponte de Williamsburg.

CONSULTÓRIO VIRTUAL

Em lugar de montar um consultório comum –uma sala de espera com números atrasados da revista “Vice” e uma recepcionista ranzinza e tatuada para marcar consultas–, ele convidava os pacientes a contatá-lo diretamente, por mensagem instantânea ou e-mail.

“Podemos determinar se o melhor é eu ir ao seu escritório ou à sua casa, ou se podemos nos encontrar em algum outro lugar da cidade”, ele propunha no site. “Podemos até nos encontrar no parque ou em uma cafeteria”.

O conceito parecia tão moderninho que o site Gawker zombou de Parkinson em um post que dizia que “o médico hipster de Williamsburg diagnostica pacientes por mensagens instantâneas”. “Quando li aquilo, achei que minha carreira tinha acabado. Mas a realidade é que meu site recebeu 7 milhões de visitas por causa do post. Tive ofertas para escrever um livro e para um filme baseado na minha história. O programa de Tyra Banks entrou em contato: queriam que eu fosse o médico residente”, conta Parkinson.

A VIRADA

Parkinson rejeitou as diversas ofertas, mas aproveitou bem a popularidade conquistada. Criou uma consultoria de design chamada The Future Well. Também parou de atender a pacientes e deixou que sua licença como médico expirasse. “Atender pacientes era estressante para mim”, diz. Em vez disso, dedicou seu tempo a cultivar novos contatos.

Deu festas, organizou coquetéis e recebeu convidados para churrascos em sua casa, entre os quais pessoas influentes no mundo tecnológico, como David Karp, fundador do Tumblr; Chris Hughes, um dos fundadores do Facebook e atual editor chefe da revista “New Republic”; e Jacob Lodwick, fundador do Vimeo.

“O pessoal da internet realmente me adotou como conselheiro médico”, afirma.

Em vez de fazer visitas médicas a profissionais doentes, Parkinson passou a conviver com seus chefes. Ele decidiu que sua nova empresa trabalharia exclusivamente atendendo a companhias.

Criada em 2012, a empresa agora tem oito funcionários, entre os quais dois clínicos gerais, e atende a 30 empresas e 500 de seus funcionários. A rede da Sherpaa abarca cem especialistas aos quais ela encaminha pacientes.

Mais do que o serviço 24 horas, o principal atrativo da Sherpaa para os empregadores é o custo. Ao deixar de lado o uso de consultórios e de prontos socorros como formas primárias de tratamento, a Sherpaa alega poder economizar US$ 4.000 por funcionário por ano aos seus clientes. A companhia cobra US$ 50 ao mês por funcionário.

Parkinson continua a dar festas para os médicos antenados. Sob uma bandeira da Cruz Vermelha da era da Segunda Guerra Mundial, os convidados discutiam assuntos correntes, como a “crise do um quarto de vida” entre os jovens de 20 e poucos anos e a “barriga de hipster”, resultado de comida demais e exercício de menos.

“Parte de ter 20 e poucos anos é fazer coisas idiotas”, disse Parkinson, comendo uma salsicha. “E parte de passar dos 30 é perceber que você não vai manter um corpo sexy se continuar fazendo a mesma coisa para sempre”.

Tradução de Paulo Migliacci

Fonte: Folha de São Paulo

 

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